Click e a psicanálise: o controle remoto da vida
O filme Click (2006), estrelado por Adam Sandler, pode parecer à primeira vista apenas uma comédia dramática sobre um homem sobrecarregado de trabalho que descobre um controle remoto mágico. Mas, se olharmos pela lente da psicanálise, percebemos que Michael Newman encarna um dilema universal: a recusa em lidar com a castração, isto é, com os limites da vida, da linguagem e do tempo.
Michael quer pular as partes “chatas” da existência: discussões, doenças, obrigações familiares. Mas ao avançar o tempo, descobre que justamente nesses intervalos aparentemente inúteis estava a substância da vida — o amor, o luto, o desejo, as lições que nos estruturam como sujeitos.
Na leitura freudiana, podemos dizer que Michael sofre de um recalque do princípio de realidade: ele busca apenas o prazer imediato, negando a dor necessária ao amadurecimento. Em termos lacanianos, o controle remoto simboliza o objeto a — uma tentativa mágica de preencher a falta, mas que só produz mais vazio.
O filme também traz um ponto de ensino de inglês interessante: a expressão “to fast-forward” (avançar rapidamente). Michael literalmente “fast-forwards” his life. Mas, como dizemos em psicanálise, não há fast-forward para o inconsciente: os traumas, as escolhas e os laços afetivos exigem tempo, repetição, elaboração.
Em suma, Click mostra que a vida só encontra sentido quando aceitamos a incompletude. O que Michael aprende antes de morrer — que family comes first — é menos uma moral da história e mais uma verdade psicanalítica: somos sujeitos do desejo, sempre marcados pela falta, mas é na relação com o outro que encontramos o que chamamos de amor.
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